Eu arrumo a cama e me sento; como se aguardasse algo, talvez alguém. O dia todo passou, e nessa hora tardia ainda espero um acontecimento, uma surpresa, uma visita. Espero uma revelação, algo que me de motivos para acordar amanhã; algo que dê significado a tudo que eu tenha passado hoje, às dezenas de vezes em que me esforcei, em que me neguei, em que eu precisei me superar e persistir.
Sento na beira da cama e espero. Nessas horas, a única coisa que me dá esperanças é um copo de vinho. Dois, dois copos. Dois copos me dão esperanças de poder esquecer de mim, de minhas perguntas não respondidas, minhas relações mal resolvidas, esse tédio colossal que me oprime como se o próprio planeta Saturno repousasse sobre meus ombros. Somente esses dois copos para aquecer meu peito, para amainar minhas idéias, para tornar meu leito um mínimo aconchegante que seja.
Mas assim mesmo o sono passa ao longe. Durmo tarde, acordo cedo, me canso de propósito e mesmo assim não tenho a dádiva do sono quando à noite me deito. De dia, eu durmo facilmente a qualquer hora em que me recolha. O melhor sono é depois de oito e antes de meio-dia. Depois do almoço, com muita simplicidade posso fazer a siesta e dormir até o início da noite. Mas a noite, quando se deve, eu não durmo. Nem por decreto. De dia tudo parece cansativo, moroso, obrigatório. De noite, não... a noite esconde, refresca, revigora, surpreende. A noite é bela, negra, arredia, estrelada, subversiva, assanhada. A noite me convida à loucura, e agora, à beira da cama, não consigo dormir.
Mas nessa noite não há convites à loucura a não ser da própria Eris, e não vou ser eu que vou me aventurar pelas ruas desertas, ou pelos ermos mais desertos ainda em busca de uma aventura ou distração. Não hoje. Hoje, nem as estrelas e seus encantos podem me demover do meu propósito nulo, de minha inclinação à nulidade. Como podem chamar de niilismo esse desejo de vazio? É de uma tremenda hipocrisia negar que o desejo de morrer, mesmo que velado, seja uma condição inerente à vida humana. Estar vivo cansa, dói, é angústia e necessidade e desejo e querências sem fim. É respirar, sentir, pensar, falar, digerir, agir, uma tal geração de atrito com tudo que há que me faz querer morrer todo dia antes de me levantar. Morrer e voltar para o sono de onde utilmente saíra. Ó sono uterino, eis o sagrado Graal que todos vêm procurando pelos séculos, amém.
Mas desejar morrer não é querer morrer, muito menos tentar morrer. Mas pouco ajuda a me levantar de manhã e não me traz bom sono à noite. Ter a morte como companheira só é bom para fazer a arte e escrever poesias, creio eu. É bom para quaisquer outras coisas para as quais o tormento interior seja uma benesse. Constante tormento interior. Tormento custoso, sim, mas tem suas dádivas. Todas as coisas eu sinto com maior intensidade do que as outras pessoas que eu tenho visto sentir. A promessa da morte exalta a presença da vida – mesmo a vida sendo muitas vezes mais dor do que alegria, é sempre felicidade, ante a possibilidade da morte. A única coisa que me da tranqüilidade na vida é a certeza de que, cedo ou – mais possivelmente – tarde eu vá morrer. Morrerei, sim, e sou muito grato por esse arranjo universal. É como um trato entre cavalheiros: vai e vive, não importa, você vai morrer no final mesmo. Pode arrumar as maiores confusões, se enredar nas mais impossíveis questões, pode cometer e realizar, que um dia a morte virá te libertar de tudo a que você amarrou. Sabe lá pra onde, eu só sei que vou encontrar a morte do mesmo jeito em que me confronto com a vida: lutando.
Nada se explica por si mesmo, isso não é niilismo, é a lei da causalidade necessária.
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