Hoje eu experimentei a preocupação, o temor pela minha própria vida. Não o temor por uma morte rápida e aventureira, com a vida dependendo do meu corpo e dos meus instintos – desse temor eu sou afeito.Também não falo do temor vago, quase filosófico, de que para morrer basta estar vivo, em qualquer instante-situação.
Experimentei a preocupação de realmente estar atrelado a um feixe de acontecimentos em que circunstâncias e vontades atuam em direção à consecução da minha ruína, desonra, miséria e loucura.
Hoje eu me senti assim e por momentos apenas a fuga absoluta me fazia sentido. O suicídio é mesmo a mais importante questão filosófica e eu não a desejaria à ninguém enquanto estava sofrendo; mas agora que a superei, desejo isso a você.
Tantas coisas me foram oferecidas,
outras tantas outras achei prometidas,
mas a noite já se finda
e ca’stou, procurando o sono,
sob uma marquise na chuva.
Não amaldiçôo nem o clima, nem a vida,
pois lições há para serem aprendidas
em todas as esquinas do mundo
e triste faina humana –
dificilmente se encontram
lições prazerosas
no instante em que as recebemos.
É nessa dificuldade,
nessa carestia,
que eu vejo exaltada a vida.
O calor é tão valioso
quanto o frio que faz lá fora.
O vinho tão agradável,
quanto dolorosa a sobriedade.
A solidão tão calorosa,
quanto a pobreza da companhia.
Tua presença tão exaltada,
quanto a falta que faz à minha.
A morte só é indesejada
àquele que temeu a vida,
que viver é coisa que cansa
e morrer – confesso – reanima.
Sentado na escuridão, meus olhos pousados no nada, observando languidamente aquela massa amorfa que chamamos mata à noite. Quando cruzou de súbito, um facho de luz aleatório com uma pequetita mariposa de asas translúcidas. Pelo instante que cruzou o mundo do visível, essa mariposa atraiu meu olhar sequioso, e nesse pequeno espaço de tempo, meus olhos foram famintos e gulosos, deliciados em ter o que ver, não, em ter para que olhar. Fruí de um prazer simples e foi como se minha visão curasse uma angústia, saciasse um desejo-necessidade.
Eu sempre pensei em mim como esteta, mas nunca tinha reparado no prazer de olhar e ver.
Uma nuvem de chumbo turva minha mente,
Uma sombra escura deprime minha visão.
Uma incessante linha de pensamentos negros
como um tortuoso cortejo fúnebre,
onde o morto vem andando,
atrelado ao final.
E este morto, é claro, sou eu
(não como um todo,
mas aquele mesmo eu que está pensando).