terça-feira, 3 de março de 2009

texto introdutório do Grupo Açucar

“Atravessei o rio numa casca de banana
arrisquei a minha vida pra colher caldo de cana...”
- antiga música quilombola


Outrora símbolo da grandeza nacional, o açúcar volta a figurar como novidade, expoente da produção nacional, dessa vez, artística.
Pegando nossa vida que fazemos a partir do chão apontados para o céu como suculentas hastes de cana, passadas pelo moinho dos acontecimentos, extraímos o caldo espesso de nossa experiência artística e ora bruto como tijolos de rapadura, ora tão fino quanto o açúcar refinado, condensamos vivências, memórias, idéias em objetos, atos e palavras.


Tendo em comum o caráter crítico e experimental de nossa produção artística e o atelier do escultor Marcelo Lago como base de operações; nos une o acordo de liberdade mútua para comentarmos a nossa própria obra.
Nosso grupo começou pela mera praticidade de trabalhar num atelier equipado e assessorado e aos poucos, observando o processo criativo, começamos a entender e respeitar a obra uns dos outros, e isso nos deu abertura para analisar e discutir – o que freqüentemente explicita fatos ignorados pelo próprio autor, já que não há arte sem relação com o expectador e sendo a arte algo de sublime, necessariamente ultrapassa a porção consciente de seu criador.
Muito importante foi a colaboração do próprio Marcelo, critico afiado e habilué da esfera artística contemporânea nacional, que como mentor, critico ou amigo, quase sempre tinha observações pertinentes seja de cunho teórico ou pratico, passando pelo crivo da experiência os nossos planos muitas vezes complicados de serem executados.
Sendo todos artistas iniciantes, esse questionamento realizado quase em grupo nos fortalece e direciona – não em como concluir a obra em curso, mas como corroboração de saber que reações a obra pode gerar num observador mais intimo e portanto mais capacitado. Assim o nosso ponto de contato não é a discussão de idéias e conceitos, mas sim se a fatura consegue comunicar as inteções de seu autor, ou mais precisamente, o que ela vem a causar, suscitar, induzir.
Verificamos à posteriori que nossa obra como um grupo (não poderia deixar de ser) gira em torno do nosso cotidiano, cada um fazendo uso de sua própria linguagem, mas sempre de maneira crítica e sincera. Como diria Kossut, nossa produção não é nossa arte, é o resquício de onde passeou o ponto de vista artístico sobre o mundo, incluindo a própria arte.

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